Rins
Mesoderma intermediário
Os rins e as vias urinárias nascem do mesoderma intermediário, a faixa entre o mesoderma paraxial e o lateral. Quando o embrião se dobra, essa faixa forma, de cada lado da aorta dorsal, uma saliência chamada crista urogenital.
É do mesoderma intermediário que vêm o epitélio de todos os néfrons e o sistema coletor; os vasos do rim têm outra origem (Costantini e Kopan, 2010).
As três gerações de rins
Os rins surgem em três gerações, de cima para baixo. O pronefro, na região do pescoço, é rudimentar e desaparece logo. O mesonefro, grande e alongado, vem em seguida e funciona por pouco tempo. Na 5ª semana aparece o metanefro, o rim definitivo: perto da cloaca, o ducto mesonéfrico emite o broto uretérico, que cresce para dentro do blastema metanéfrico.
O broto não brota sozinho: experimentos em camundongos mostram que o blastema o induz com sinais como o GDNF. A posição importa. Um broto que sai alto ou baixo demais se liga mal à bexiga, e brotos múltiplos produzem ureter duplo. Em pessoas com agenesia renal, mutações no receptor RET são frequentes (Costantini e Kopan, 2010).
Túbulo mesonéfrico
Cada túbulo do mesonefro desemboca no ducto mesonéfrico. Na extremidade oposta, o túbulo se alarga na cápsula glomerular, e um tufo de capilares, o glomérulo, se encaixa nela.
O broto uretérico se ramifica
A haste do broto uretérico dará o ureter, e a extremidade dilatada, a pelve renal. As primeiras gerações de ramos viram os cálices maiores; as seguintes, os cálices menores; as demais, os túbulos coletores. A ponta de cada ramo continua sempre envolvida pelo blastema. Ao final, o rim fetal fica dividido em lobos.
É uma indução de mão dupla: o blastema estimula o broto a crescer e se ramificar, e o broto estimula o blastema a formar néfrons (Little e McMahon, 2012).
Em camundongos o broto se ramifica cerca de dez vezes, e quanto mais ramos, mais néfrons são induzidos: falhas na ramificação reduzem o número de néfrons (Costantini e Kopan, 2010). O rim humano difere do de camundongo no ritmo, na escala e em traços como a formação dos lobos (Lindström et al., 2018).
Do blastema ao néfron
Em volta da ponta de cada túbulo coletor, o blastema forma uma capa de células. Nela estão as progenitoras de todo o néfron; em camundongos, esse estoque cresce no início e se esgota quando o desenvolvimento termina (Costantini e Kopan, 2010).
Induzidas pela ponta do túbulo coletor, essas células formam uma vesícula metanéfrica, que se alonga em túbulo. Uma extremidade do túbulo recebe o glomérulo; a outra se une ao túbulo coletor. Cápsula, túbulos contorcidos e alça do néfron vêm do blastema; o túbulo coletor vem do broto uretérico.
No ser humano, esse ciclo de indução se repete do início do desenvolvimento renal, por volta de 4 semanas de gestação, até cerca de 34 a 37 semanas, e assim se forma todo o estoque de néfrons. São em torno de 1 milhão, número que varia bastante entre pessoas (Lindström et al., 2018). Ter poucos néfrons é fator de risco para hipertensão e insuficiência renal na vida adulta (Costantini e Kopan, 2010).
A subida e a rotação
Os rins se formam na pelve e terminam no abdome. Essa “subida” é sobretudo aparente: o que cresce é o corpo do embrião abaixo deles. No trajeto, cada rim gira quase 90°, e o hilo, antes voltado para a frente, passa a ficar voltado para a frente e para a linha média.
A irrigação acompanha a mudança. As artérias renais vêm primeiro das ilíacas comuns, depois da parte inferior da aorta e, por fim, de ramos mais altos da aorta, enquanto os ramos de baixo regridem. Na 9ª semana os rins tocam as glândulas suprarrenais e param de subir.
Ilustração própria, pintada quadro a quadro e conferida etapa por etapa em Moore, Persaud & Torchia, Embriologia Clínica, 10ª ed., cap. 12, e nos artigos abaixo. Os textos foram reescritos a partir dessas fontes; quando um dado vem de estudos em camundongos, o texto diz. Cores no código do Moore, em versão clara. O vídeo liga os quadros com transições animadas, que não correspondem a eventos descritos no livro. Simplificações: na etapa 1, o âmnio foi omitido nos dois últimos quadros; na etapa 2, o embrião é esquemático (sem os brotos dos membros) e igual nos três quadros, e a aorta foi omitida; nas etapas 2 a 5 aparece um lado só; o número de ramificações da etapa 4 é esquemático; na etapa 5 aparece um néfron só; na etapa 6, as gônadas e os ductos mesonéfricos foram omitidos.
Artigos revisados por pares citados nas etapas:
- Little MH, McMahon AP. Mammalian kidney development: principles, progress, and projections. Cold Spring Harb Perspect Biol. 2012;4(5):a008300. doi:10.1101/cshperspect.a008300. PMID: 22550230. Acesso aberto: PMC3331696.
- Costantini F, Kopan R. Patterning a complex organ: branching morphogenesis and nephron segmentation in kidney development. Dev Cell. 2010;18(5):698-712. doi:10.1016/j.devcel.2010.04.008. PMID: 20493806. Acesso aberto: PMC2883254.
- Lindström NO, McMahon JA, Guo J, et al. Conserved and divergent features of human and mouse kidney organogenesis. J Am Soc Nephrol. 2018;29(3):785-805. doi:10.1681/ASN.2017080887. PMID: 29449453. Acesso aberto: PMC5827606.


















